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  • Oscar Freitas Jr.

Os copos nossos de cada dia na visão de um cervejeiro

Os copos têm uma história, já pensou nisso? Um simples recipiente, geralmente de vidro, cheio de histórias, além da cerveja que nele contém. Em um único recipiente você tem um instrumento capaz de tornar a sua experiência ainda melhor.  Mas se você acha que sempre bebemos em taças de vidros, cristais translúcidos, está enganado. 


Antigamente os copos eram robustos, feitos de madeira, metal, porcelana e até couro. O interessante é que nessa época pouco se importava com o “visual” da cerveja, e muitas vezes por conta disso as cervejas não tinham um aspecto muito satisfatório, por assim dizer. 


Você já deve ter visto em séries e filmes que retratam tabernas, aquelas cervejas em copos rústicos. Era exatamente assim. Aquilo geralmente era cerveja. Porém não vá achando que cerveja era uma espécie de lavagem, existiam pessoas experimentadas nesse trabalho e apesar das limitações em matéria prima e tecnologia, o Estado, município ou região tinha grande interesse em fazer boas cervejas, pois isso representava sua reputação. 


Então, nas cavernas do sul da Alemanha vieram as cervejas Lagers (armazenar em alemão), de fermentação e temperatura baixa; e na Inglaterra as Pale Ales  claras, translúcidas, precisavam de uma nova “imagem” para mostrar todo esse brilho. Tudo mudou. Para melhor mostrar todo esse brilho, esse dourado, copos fechados não eram mais agradáveis. Era preciso mostrar toda essa beleza. 



Os copos vidro na era moderna


Apesar do vidro ter sido criado há cerca de 4.000 anos, somente na idade moderna, os copos de vidro apareceram. E com eles, toda uma mudança de processos de filtragens, de retenção do “trube” (proteínas do malte, polifenóis do malte e do lúpulo – e outras partículas). A tecnologia cervejeira se adaptou aos novos tempos e criaram técnicas que revolucionaram o modo como vemos a cerveja. 


Os copos não só alteraram o modo de “ver” a cerveja, mas também se moldou para melhor mostrá-la em suas mais diversas formas. Se as cervejas haviam se adequado aos novos copos de vidro, esse copos também se moldaram às texturas, gostos e aromas das cervejas. Assim o copo se tornou um objeto de grande utilidade para melhor explorar a cerveja que você bebe. 



Um copo para cada estilo





A primeira coisa que você deve observar quando bebe cerveja é o tamanho do copo em relação ao teor alcoólico da cerveja. Cervejas de grande “bebibilidade” tendem a ser melhor acondicionadas à copos como pints, que comportam uma quantidade volumosa, e seu vidro em geral, é um pouco mais grosso, impedindo que cerveja esquente rapidamente. Mas se você for apreciar uma Barley Wine ou uma Russian Imperial Stout, o ideal é um copo pequeno de bojo, como um copo de conhaque chamado de Snifter. O fundo largo e redondo é desenhado para ajudar na transmissão de calor das mãos pois com a espessura fina de vidro, ajuda no aquecimento da bebida de potencial alcoólico alto. 



Também é ideal para que em quantidades menores você possa aproveitar mais a cerveja e degustá-la com mais qualidade. Copos ideais para cervejas carbonatadas:


Weiss

Cervejas mais carbonatadas precisam de um “headspace” maior para acomodar melhor a espuma no copo. Copos de weiss, por exemplo,têm um formato alongado e bocal aberto, justamente para que você possa acomodar toda a sua cerveja de 500ml em um único copo, junto com toda sua espuma e aquele fermentinho por último (aqui há duas discussões sobre esse serviço, alguns descartam o fermento de fundo de uma weiss, o que eu acho um pecado). E em uma só dose, todo o esplendor explosivo de uma Weizenbier está em um copo imenso e majestoso. 


Pilsen


Os copos Pilsen precisam também deste “espaço” para a cerveja. Geralmente conhecidas aqui no Brasil como Tulipas, elas têm um corpo alongado e bocal aberto para dispersar melhor os aromas e também deixar a carbonatação alta de um clássica Pilsner e sua sede ser saciada com aquele clássico “bigode” de espuma. 

São usadas também para cervejas como American Lager, como as Pilsners são de alta drinkability (ou condição de beber mais). 



Copos para Festivais



Talvez você deva estar pensando: mas e aquele copos grandes, imensos? Não são servidos esse tipo de cerveja? Sim, e não… Geralmente usados em festivais são para acomodar cervejas também de alta drikabilit e também com alta carbonatação, são grossos para manter a cerveja a temperatura da cerveja pois terão que mostrar uma cerveja brilhante, carbonatada e com sua espuma volumosa branca, e um copo de vidro grosso protege tudo isso. Lembra das Oktoberfests tão famosas no mundo inteiro? Então, esses copos são praticamente marcas registradas desses festivais. 


Copos de Abadia


Um dos copos que mais acho lindos são os cálices. Eles rememoram a idade média, nos monastérios, onde os monges produziam cervejas para os seus atos de jejum, ou quando um viajante com fome sede e precisando de uma estalagem batia a sua porta, era atendido e servido com um cálice de cerveja. E se você pensa que eram aqueles copos lindos, dourados, todo trabalhado, está redondamente enganado. Eram de madeira, cerâmicas ou metal e geralmente produzidos no próprio monastério. mas eles tinham, ou melhor, tem uma característica que lhes dava toda uma imponência, possuem um bojo e bocal aberto e fundo raso permitem sentir uma maior percepção de aromas mais complexos como as cervejas belgas. 



Copo de Degustação

Mas o copo que mais me chama atenção é o Teku, um copo elegante com uma haste longa seguido por um bojo largo que logo se afunila e terminando aberto. Inspirada no copo Iso, copo ideal para avaliação sensorial, ele tem esse nome em homenagem aos seus criadores Teo Musso (fundador da Baladin Brewery, cervejaria italiana) e seu sommelier Kuaska, a união das primeiras palavras dos seus nomes criaram o nome do copo: TEKU e ficou conhecido como copo de degustação. Ele foi criado para exaltar os aromas e sabores da cerveja. Pela sua concentração no bojo e o desprendimento dos aromas através do “afunilamento” ao abrir o bouquet uma explosão acontece e você consegue sentir mais nitidamente todo o sabor concentrado em uma cerveja.


Copo de Geléia

Assim também como gosto dos copos tipo tumbler , ou copo francês, usado antigamente para armazenar gelatinas e geléias na França e na Bélgica. Um copo robusto com bocal amplo que favorece longos goles, ideal para cervejas Blanche ou Witibier que não exigem uma formação de espuma muito espessa.


Enfim, podíamos ficar muito tempo aqui discorrendo e mostrando a funcionalidade de cada copo, suas histórias e seus “jeito de ser”, mas o que importa é o quanto você tem de prazer em degustar uma cerveja. O copo é um suporte para lhe dar maior prazer no que você está bebendo, muitos cumprem sua função sendo uma simples caldereta, ou até um copo dos antigos, que chamamos de brazilian pint, ou copo americano (aquele do cafezinho da padaria na esquina de casa), ou simplesmente aqueles copos antigos de massa de tomate ou geléia, assim como os tumbler, cumprem uma função importante para que você tenha uma experiência para extrair tudo o que você puder de uma cerveja. Até porque é para isso que bebemos, para ter prazer, então nada melhor que termos as melhores formas de explorar esses sabores e aromas incríveis em nossas bocas e narizes.




Texto: Oscar Freitas Jr.

Sommelier e Mestre em Estilos




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